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Yerma. Diálogos de Lorca e Lobos [ou: um mês de fina arte]

Posted by Atila Pf on 00:21 in , ,
Desde o início do ano fui convidado para operar as legendas do Festival Amazonas de Ópera. Era um trabalho interessante e que me manteria em certo contato com o circuito operístico que acontece por aqui, e logo aceitei sem pestanejar.
Com pouco mais de um mês antes da estreia do festival, recebi em uma noite uma ligação do maestro Marcelo de Jesus pedindo para que eu fosse ao teatro. Imaginava que seria algo com as legendas, os arquivos deveriam ter chegado, e ele me passaria algumas instruções para a tradução do recital comemorativo de Schumann e Chopin. Lá fui surpreendido: ao chegar recebi o convite para fazer a assistencia de direção de Allex Aguilera na ópera Yerma, de Villa Lobos.

Um choque, de primeira. Eu ja havia trabalhado como assistencia de direção musical, mas nunca com direção cênica. Eu tava fazendo aquele papel de "carne nova" naquelas boites em que todo mundo se conhece, e de repente aparece alguem novo.
Por um mês tive uma experiência simplesmente arrebatadora - a oportunidade de participar de um cotidiano artístico de primeira qualidade, não só com o querido Allex, mas também com o próprio Marcelo de Jesus, com a diva Eliane Coelho (pasme!) e diversos outros grandes nomes.

A ópera, um complexo trabalho de Villa Lobos sobre o imortal texto de Garcia Lorca, fazia lá seus quase 30 anos sem ser encenada, tendo uma estreia brasileira cheia de cortes e com uma gravação de péssima categoria. A responsabilidade era grande: obra rara, tudo sem referências e a primeira vez na íntegra desde sua primeira estreia nos Estados Unidos.
Conseguimos, na última sexta, apresentar a terceira e última récita do espetáculo. Um sucesso! Ficam na lembrança os grandes momentos desta produção tão exigente e difícil que foi a de Yerma!

 A música não dava espaço para movimentações cenicas. O senhor Aguilera foi genial neste sentido e ponderou tudo muito bem. A ideia de uma Yerma voz e uma Yerma corpo, de um Juan voz e um Juan corpo... uma linda concepção Lorquiana (parabéns para Adriana e Getúlio, os bailarinos que deram o corpo às vozes de Yerma e Juan).
O simples cenário quase inexistente, outra ideia que remete Lorca, criou profundidade cênica.

A belíssima iluminação, assinada pelo querido Moisés Vasconcellos, causava impacto em cada cena, em cada transição. Ia ficando impossível não ser hipnotizado pelo clima tenso e carregado da ópera no geral. Deus criou a luz em um segundo. Nós levamos 3 madrugadas.
 Difícil esquecer a cena das lavadeiras. A contrastante iluminação, a ideia cênica, o texto impetuoso, e mais ainda a cascata de arroz. Que ideia brilhante, a do diretor! Há quem jure que era agua. Mas nada melhor que uma "chuva" de arroz para simbolizar a aridez andaluza.

Para chegarmos a isto tudo, quanto trabalho!! "E tem gente que vaia, né?", uma vez me disse o Allex, às 4 da manhã, enquanto trabalhavamos com o Moises na iluminação. Ele tem razão - nunca mais façam isto na vida, crianças.

A diva Eliane Coelho merece louros por tudo. A difícil tarefa de encarnar a mulher árida de Lorca me fez lembrar, ontem, que a sra. Eliane, na primeira vez em que nos falamos e que ela elegantemente lembrou ao nos vermos no seu primeiro dia de ensaio de "andaluza", viveu também uma mulher com historia até bastante parecida e que exigia uma cantora magnífica, que foi Katerina Izmailova da Lady Macbeth do distrito de Mtsensk em 2007. Duas mulheres fortes, oprimidas e que matam. Alguns muitos quilômetros as separam.

A peça que uniu todo o mundo musical da ópera se chama André dos Santos. Que profissional! Um pianista exímio, de longe o melhor correpetidor que ja vi. Me foi mais que uma honra ter vivido o trabalho desta galera que produz a fina arte.

Yerma me foi aprendizado do início ao fim. Quantas pessoas conheci, quantas amizades fiz. Um obrigado aos maestros Luiz Malheiro e Marcelo de Jesus pela oportunidade.  Marcelo Puente, Homero Velho, Isabelle Sabriè, Keila de Moraes, Elaine Martorano, Randal Oliveira, Manuela Freua... Bravo a todos!!Agora, ja voltei para minhas legendas. Sinto falta daquela música pesada do Villa - tem sido difícil retornar ao barroco.

Ainda faço posts de Romeo et Juliette (Gounod) e Lo Schiavo (C. Gomes). Não sou assistente de direção, tampouco espectador... mas acho que terei do que falar...


Em nosso último encontro, saudei Eliane Coelho com beijos nas mãos e um sincero "Brava!". Ela sorriu humildemente e me deu uma grande resposta: "Até a próxima, Átila". Fico na torcida por mim...

1 Comments


Que bom que nossa Yerma nos marcou de uma maneira ou de outra. Tenho certeza que ela ficará para sempre na nossa memória, tanto pessoal como profissionalmente. Obrigado pela sua ajuda e pelas risadas que dávamos deixando de lado o cansaço de horas e horas de trabalho.
Até breve, caro Átila.

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